sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O garoto Rafael

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O pai finalizou o corte. Encontro-me em um salão de cabelereiro, na verdade, nunca havia frequentado um assim. Mas não quero focar no local e em outras pessoas, apenas no pai e seu filho.

Inicialmente de onde me encontro sentado, enxergava apenas a figura paterna, o filho se escondia ao lado, mas logo se apresentou a cena e se tornou o personagem principal. Seus cabelos são lisos, castanhos, longos e estavam prontos para serem cerrados, pai e filho trocam opiniões sobre a transformação. O corte então é iniciado, o filho boceja e o pai pede para que ele não durma como das outras vezes, o filho lhe responde com sorrisos e expressões inocentes de um garoto, aparentemente no seu oitavo aniversário. Identifico-me com a sua felicidade e olhos cerrados, seu ponto fraco é o mesmo que o meu, mãos no cabelo trazem sono e quietude.

O filho não obedece ao pai, se entrega completamente aos carinhos de quem molda o seu cabelo, fazendo com que sorrisos apareçam no ambiente, pois é inacreditável a sua reação ao toque. Seu pai, imediatamente aperta o seu rosto, e aquele olhar angelical se desperta de forma rápida sobre ameaças de ficar careca. A partir dai o pai leva o filho a refletir que corresponder ao ponto fraco pode trazer riscos irreparáveis. Enquanto filosofo sobre a cena, o corte toma forma e o sono de seu corpo não desapareceu, os riscos estão todos ali e o garoto opta por vivê-los, a não fugir dos temores e do que a vida lhe oferecia naquele instante, não busca ser um menino atencioso, apenas se entrega ao prazer de dormir, corre perigo sendo ele mesmo.

Com sua reação me identifiquei, sua coragem e inocência era desconhecida em mim. Saí do salão e desejava apenas saber o seu nome. Minutos depois, na fila de um fast-food, escolhendo a opção que mais me agradaria e discutindo sobre com minha delicada donzela as opções em cartaz, eis que ela apenas diz: “Ficou lindo o seu corte...”, focando a sua atenção e singelo olhar, atrás de mim. Era o garoto. Um mágico momento me trazia a inspiração da escrita em carne e osso, um olhar meigo, palavras mansas, envergonhadas e muito sinceras recebiam o elogio e respondia: “Sinceramente não gostei, mas muito obrigado.” Não perdi a oportunidade e continuei o elogiando, ele corado, apenas agradecia e com o tempo, pedia a opinião para o sanduiche que tinha bacon, outro ponto em comum. Analisamos e chegamos a conclusão que a melhor opção seria o número 8 e ele o solicitou a caixa, que também lhe recebeu com um carinhoso sorriso.


Eu não conseguia disfarçar, o desejo paterno estava despertado em mim de forma feroz, embora gosto muito de crianças, mas era uma situação diferente, um clima nada comum e um garoto que no silêncio e ação, me fez falar e agir. Meu pedido foi impresso primeiro, o dele logo após, mas então ele se distanciou, ficou no final da fila. Não contente em vê-lo afastado, o chamei e então questionei o seu nome, ouvi ele dizendo: “Rafael”.

No hebraico, Rafael significa: “Deus o curou”. A cura de Deus em frente a um homem em construção, me atingiu de tal forma que fui curado de um sonho, não mais sonhado, do renascimento de flores, antes sem cores, da simplicidade perdida no tempo. O garoto não fez orações, não me chamou pelo nome, talvez nunca mais o vejo, mas Deus sabia quem necessitava de cura e onde a cura deveria agir. O menino Rafael me convidou em seus gestos e silêncio, a correr riscos, a receber o toque de um Deus carinhoso e descansar, me entregando ao sono e deixando assim, os meus sonhos ressuscitarem. Fui curado. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Você mulher...

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Nesta madrugada, inspirado por um novo encontro amoroso, escrevi o que admiro e busco em uma mulher. Felizmente, tem sido muito apreciado, por isso, deixo nesta ferramenta, o registro.

VOCÊ MULHER...

Você mulher, não precisa ter um corpo de fruta,
Este sabor, não é o melhor para ser devorado.
Não precisa ter roupas sensuais,
Deixe a sua exibição para o olhar e palavras.

Você mulher, não precisa exagerar na maquiagem
Uma obra assim, nem mesmo Renoir modificaria.
Não precisa dançar o ritmo da desvalorização,
Reserve a sua dança e passos para quem lhe mereça.

Você mulher, não precisa beijar a todos os homens,
Desenvolva intimidade, primeiramente com Deus
E o homem que te desejar, terá que primeiro
Buscar a Deus para encontra-la.

Você mulher, não precisa falar grosso e dar ordens
Cultive a delicadeza nesse jardim devastado,
Sua doçura, respeito e educação farão seus desejos
Serem realizados, quando menos esperar.

Você mulher, precisa ser apenas mulher.
E saber que o príncipe existe, mas que ao invés do cavalo branco
Ele traz defeitos, talvez graves ou não.
Que gritam por cura...e a cura é ouvir e mostrar quem cura.

Você mulher, suficientemente bela, atraente
Saiba que nós homens, confusos e imaturos
Procuramos você, que lê, que compreende essa simplicidade
De ser diferente, de se decidir em não ser mais uma.

Você mulher, aonde estás?

terça-feira, 26 de julho de 2011

Marcado para viver

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Eu não escrevo desde que os meus sentimentos ficaram paralisados, quando vi aquele corpo coberto e nele nada existia, alma, desejos, sonhos e o carinho de sempre. A morte que me atropelou na estrada da vida, sendo a primeira vez, fiquei arrasado. Feridas são saradas até hoje e não sei ainda a facilidade de ver alguém que ama partir e continuar normalmente seguindo em frente, não caro leitor, confesso a você, não sou o mesmo. As lembranças ainda me perseguem na minha solidão, a terceira idade espalhada na cidade, com seus cabelos brancos ao vento, metralha a minha memória das cenas que sinceramente, não quero esquecer. Caminhando, troco sorrisos e lágrimas, ninguém entende, exceto eu e Deus.

Acordo e preparo o meu café, alimento o corpo para prosseguir. Entro no banho, troco o xampu, dizem que é bom e necessário. Espalho o sabonete por todo o corpo, este ainda recheado de ondas, nas regiões abdominais. Passo um creme na face, esfrego, presente da minha irmã, segundo ela, minha pele ficaria lisa e doce como a dela. Inicialmente, achei um pouco estranho, o machismo instalado relutou, mas o óleo que me faz brilhar clamou para que fosse removido, então cedi e tem feito uma pequena diferença, apesar de achar que é mais minha fé do que o produto. Escovo os dentes, desejo que fossem mais brancos. Roupa, espelho e cabelo que cresce muito rápido, penso em rapar, enxergo a minha cara imensa e logo desisto. Saio de casa, ligo o som e deixo que cada melodia faça com que eu viva fora daquela realidade de ônibus lotado e caminho rotineiro. Canto, baixo, mas canto, quando me envergonho pronuncio as palavras sem som, principalmente as músicas estrangeiras, alias, é uma delícia cantar sem saber realmente o quê. Fui traduzir algumas letras esses dias, primeiramente para saber o que tanto gosto de fingir cantar e segundo, para estudo e curiosidade. Sabe, algumas músicas mesmo no português nu e cru, continuei sem entender.

No trabalho, as mesmas pessoas. Aquela menina tão linda, que evita conversar e eu também. Timidez as vezes distancia um casal que poderia dar certo. Mesmo assim, insisto em permanecer imóvel, estou a trabalho do bolso e das necessidades básicas, não de alimento para a alma. Na volta do trabalho, por exemplo, hoje passando em frente a uma drogaria, carro ligado, parado no estacionamento, no banco detrás, uma mulher e uma criança, correndo em direção aquele transporte, um homem. Na verdade, desejei ser ele naquele momento. Pai de família, acudindo o filho com a esposa em um carro popular. Sempre desejei crescer, por isso aproveitei pouco, a infância e adolescência. O meu desejo por ser pai é imenso, antes, é necessário uma mulher, mas não quero encontrá-la somente para usufruir de uma parte do seu corpo para que assim, me proporcione logo o que almejo. Antes de ser pai, preciso desejar ser jovem, namorado, noivo e marido. Gosto da ordem tradicional e muito a admiro.

Quero me apaixonar. E agora, talvez eu escolha “a pessoa errada”, segundo Veríssimo: “...Porque a pessoa certa faz tudo certinho. Chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas, mas nem sempre a gente está precisando das coisas certas. Aí é a hora de procurar a pessoa errada.”

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Crônica da Saudade

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Hoje, minha vó Nice que faleceu no dia 19/06, as 23:50, completaria os seus 80 anos de idade. Deus escolheu a levar antes e deixar apenas, lembranças, saudade, muita saudade. Devido a isso, a ela dedico essa crônica, com muito amor e carinho.

       "Após levantar da cama e ver algumas chamadas não atendidas, cerca de três, pensei seriamente no que estas poderiam me dizer, mas as atrasei. Após o banho, a roupa de trabalho e perfume, prossegui ruma à rotina que se alimenta de mim e me deixa, diariamente, mais cansado. Entrei no ônibus, que me acolheu com carinho e calor, sai dele após dez minutos. A curiosidade ainda era intensa, mesmo sabendo a notícia que aquelas chamadas poderiam me trazer. Assim que recepcionei os sedentos de conhecimento, naquela fria madrugada, outra ligação, esta eu ouvi e então, eu que estava dentro de uma sala, sai para agora atender... tarde demais. Meus passos foram curtos ou as chamadas rápidas, perdi mais uma novamente. Mas, enquanto de fora da sala estava, sendo vítima daquele vento gelado e escuridão, os enfrentei, me afastei de todos para receber a notícia que a minha alma esperava recepcionar, mesmo não sabendo como. Retornei a ligação, a minha mãe atendeu e suas lágrimas que acompanhavam cada sílaba do meu nome, após citá-lo, apenas disse: “... sua avó faleceu, estou aqui no velório”. O silêncio tomou conta de mim.
       A partir daquele momento é como se duas mãos, não me pergunte de quem, rasgassem o meu peito, sem cirurgia e pudor, com intensa força que pude sentir. Toda a minha força se dissipou e por não estar concentrada em nenhuma parte de mim, entreguei-me a esse processo da vida e me deixei ser invadido. Sobrou fôlego para perguntar onde o corpo estava velado, ciente, desliguei. Pronto, agora as lágrimas sobressaíram e eu estava há poucos minutos para ensinar a alguns, o que a vida tem me deixado aprender. Deixei a alma escorrer. Em poucos minutos, num canto escuro a cirurgia foi iniciada e a vontade era gritar até que alguém corresse, nada dissesse e me abraçasse. Somente Deus naquela hora, poderia fazer isso e fez. Enxugou aquelas lágrimas, me concedeu amor e força para continuar a trajetória, nem que fosse por mais alguns minutos.
         Entrei na sala, meus olhos vermelhos poderiam ser julgados como irritados ou afetados por uma virose, mas passaram despercebidos. Iniciei uma dinâmica, em três processos, consegui sorrir e fazer com que outros dessem gargalhadas, era mágico, nada real. Assim consegui percorrer metade do plano de aula e quando a pressão interior se intensificou e ao meu redor, já estavam por perto, pessoas que poderiam me ouvir e ajudar, fui atrás de socorro. Desabafei e a comoção fez com que um movimento solidário se formasse, fui liberado das responsabilidades do dia. Meu pai do lado de fora me esperava, entrei no carro velho e fomos até o local, onde jamais esqueceria a imagem, o cheiro e todas as sensações que nele vivi.
           Todos os familiares ali estavam, alguns que nunca conheci me cumprimentavam, apresentavam os seus sentimentos, antes mesmo de eu saber o porquê dessa atitude. Caminhei em meio a olhares, comentários, fuxicos e ali estava o esperado, inesperado. Quando me aproximei e olhei o corpo, o rosto, vestido e flores, a cirurgia em processo, arrancou-me um pedaço e gritei. Tentando controlar a euforia daquele momento, cerrava os dentes para não emitir um alto som, mas não deu, tive que ser amparado por aqueles que haviam passado pelo mesmo processo, após o primeiro encontro. Não sei por quanto tempo fiquei ali sentado, chorando, mesmo ouvindo comentários de que não deveria assim proceder. Um diácono apareceu, cumprimentou a maioria, fez orações, deixou uma mensagem do evangelho e espiritualmente se despediu daquela que não conhecia, nem amava...errou até o nome por duas vezes, mas, era o seu papel, fez de forma honrosa e creio que Deus o ouviu e o capacitou. Fiquei por mais alguns minutos, confesso que esperei algum abraço conhecido e sincero me envolver, mas os que prometeram ir, não foram enquanto eu ali estava. Ainda fraco, me levantei, toquei pela primeira vez o rosto dela... frio, mais nada estava ali a não ser o corpo que fica na espera de retornar a terra para ser consumado. Refleti em tudo o que fiz enquanto seu corpo estava quente... muito pouco por mim foi feito, novamente chorei.
      O enterro foi no mesmo dia, horas mais tarde. Eu estava em casa, garantindo a excelência em um trabalho que me auxiliaria a ser aprovado naquela matéria, mas não era ali o meu lugar e nem mesmo o momento para isso, mas fiquei. O enterro passou, tive poucas notícias e eu sabia que precisava de um último encontro. No dia posterior, livre da rotina, um pouco mais descansado, no fim da tarde entrei no cemitério e comecei uma busca pelo local. Nada encontrando, meu pai que estava comigo, juntamente do meu irmão, questionou a uma coveira que passava ali perto, ela fumando o seu cigarro, com botas e roupas sujas de enterrar vários mortos, tragou por 2 vezes e nos respondeu o local e o horário em que foi o sepultamento, provavelmente, ela se despediu da minha avó trabalhando, afinal, os mortos também geram emprego.
      As flores estavam novas, várias por sinal. Uma coroa continha uma faixa dos filhos, outra coroa dos netos e bisnetos, nesta eu estava representado. Foi enterrada juntamente com o seu pai e sua mãe. Eu estava agora sobre todos eles e me sentia o menor, o menos importante. Eu queria ter dito algumas palavras, me despedir finalmente, mas ela não poderia me ouvir, se foi.  Eu esperei pelo dia de hoje, acreditei que ela viveria até hoje, quando completaria 80 anos. Hoje, eu iria beijá-la, abraçá-la, mesmo se ela não me reconhecesse. Hoje, eu iria demonstrar a ela todo o meu amor, carinho e agradecimento... esse foi o meu problema, marquei data para fazer o que talvez, ela aguarda-se todos os dias de forma espontânea... data e hora marcadas  para dizer apenas: “vó, eu te amo”.  As horas passam, normalmente marcamos hora para tudo, menos para amar. Nunca escrevi na minha agenda: “visitar a minha avó doente e encher ela de beijos...”.
     A morte sempre nos traz um sentimento que necessitamos de revisão. E claro, não somos preparados para a morte, tanto que a pergunta que mais ouvi no dia foi: “Tudo bem com você?”. Claro que não. Mas as pessoas não sabem como se comportar, o que dizer, preferem então jogar a responsabilidade para Deus e que Ele console, que Ele ajude, que Ele enxugue as lágrimas. De fato, o papel de Deus é fundamental, singular e ninguém o faz tão bem. Mesmo assim, ninguém me questionou: O que posso fazer para que você se sinta melhor hoje? Se for o silêncio, aqui fico, se for uma música, lhe empresto a voz, se for o meu toque aqui estão minhas mãos, se for uma oração, faço-lhe uma prece e lhe conduzo a Deus e se for apenas o choro, lhe acompanho nessa dor que não se passa. O carinho se intensificou nas redes sociais, aonde todos estão querendo saber da vida do outro, alem do único abraço forte e lágrimas do meu irmão.
Enfim, se eu tivesse mais alguns segundos, ou pudesse reanimá-la, diria: “Ei vó...obrigado por tudo...obrigado por ter sido mãe e pai de mim e da Aline, quando eles não puderam ser. Obrigado por investir tempo, dinheiro e tanto carinho, fazendo toda sexta-feira os doces e bolo que eu gostava, por receber meus amigos, namorada e me dar conselhos. Por rir das minhas piadas sem graça, por me xingar e logo em seguida me chamar de “bunitinho”, por as vezes, achar melhor me pedir conselhos. Por confiar em mim, na minha irmã e pais, mesmo quando lhe oferecíamos motivos para desconfiar. Obrigado por me amar e não colocar hora, nem data para isso.”
     Então após essa sincera declaração, caso quisesse, poderia eternamente dormir. Mas não foi assim e Deus sabe o porque. Dessa maneira Deus me ensinou a simplesmente amar a todos que Ele me desse oportunidade, sem esperar nada em troca. O que fica agora, são as lembranças do seu sorriso, doce sorriso, que me deixa uma dor crônica no peito e com isso fez nascer uma crônica da saudade."

terça-feira, 14 de junho de 2011

A Madrasta e o Espelho - Rubem Alves

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A minha primeira experiência com o autor Rubem Alves, foi recente, na verdade, hoje a noite. Quando comecei a saborear as suas doces palavras, percebi o quanto me aproximei tarde, de suas experiências, inteligência e simplicidade. 

Minha curiosidade foi despertada quando, em sala de aula, a professora mencionou que o autor de quem exponho e defendo, criticou a personagem Branca de Neve, da estória infantil, muito conhecida. A crítica foi simples: "...boba, tonta...". E sinceramente, SEMPRE achei isso, nunca a admirei. Mas, Rubem Alves qualifica outra personagem dessa estória, sim, a Madrasta e o seu espelho. Isso me intrigou, pois ele a defende, conseguindo enxergar nela uma humanidade, sem limites. Na internet, não havia essa crônica, procurei intensamente e pela primeira vez, o pai de todo internauta prático, para não dizer preguiçoso, não me auxiliou. Por isso, fiz o correto, peguei na Biblioteca o livro "O Retorno e Terno" e digitei para você leitor toda a crônica, que com certeza, embora extensa, vale muito a pena ler. Tire os seus 5 minutos e aprecie uma boa leitura.

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                A Branca de Neve é uma tonta, irritante na sua bobice. A figura que me comove por sua tragédia é a Madrasta. Se eu pudesse, mudava o nome da estória de Branca de Neve e os sete anões para a A Madrasta e o espelho. Branca de Neve é tonta e boba por não haver se olhado no espelho – se olhou, não percebeu o fascínio e o terror que moram nele. Se gosto mais da Madrasta é precisamente por isto, porque tenho longas conversas com o meu espelho – com os meus espelhos, pois são muitos...
               Ah! Você acha que isso é bobagem, que espelhos são inofensivos objetos de vidro, frios e imóveis, que nada fazem além de refletir imagens. Pois é justo aí que está o seu abismo: em seu poder de refletir. Jorge Luis Borges também tem um terror de espelhos. Diz até que lhe produzem pesadelos, pois bastam dois espelhos opostos para construir um labirinto. Faça você mesmo a experiência: brinque com os dois espelhos, um diante do outro, e veja o seu rosto se multiplicar em imagens infinitas.
                Você nunca experimentou o susto de, num restaurante, numa casa, descobrir-se repentinamente refletido num espelho, e ver-se como não gostaria, de um ângulo, de um jeito que lhe causa uma sensação de estranheza ou mesmo de vergonha? Sou assim? Edgar Allan Poe, segundo Borges, sentia a mesma coisa. E num trabalho que escreve sobre decoração de casas, ele diz que os espelhos devem ser colocados de tal forma que ninguém se veja neles refletido sem querer. Lugar certo para o espelho é no banheiro. Porque enquanto a gente vai andando na direção dele a gente tem tempo para se preparar, ficando então com a certeza de que somos nós que olhamos nele e não ele que nos observa.
                O que me faz lembrar o relato de Gustavo Corção sobre uma experiência sua, acho que na rua do Ouvidor, no Rio. Olhou na vitrine de uma livraria e viu lá dentro um senhor de cabelos brancos, rosto muito familiar, que o fitava. Cumprimentou-o respeitosamente, tirando o chapéu com a mão direita. E o rosto familiar fez exatamente a mesma coisa, ao mesmo tempo, simetricamente, só que com a mão esquerda...
                Os espelhos, segundo os mitos mais antigos, encontram-se ligados às origens do homem. Nas Sagradas Escrituras se diz que Deus criou o homem e a mulher como imagens de si mesmo, reflexos onde ele se poderia ver. E o mito de Narciso descreve a tragédia de um homem que se apaixonou por sua própria imagem, refletida na fonte. E como a imagem nunca podia se transformar em posse e desaparecia sem que seus dedos tocavam a superfície da água, ele morreu de um amor impossível.
                Os dois relatos se complementam. No primeiro, é o próprio Deus que deseja ver a sua imagem refletida...No segundo está dito que o que se busca, neste reflexo, é uma imagem que seja bela, pela qual possamos nos apaixonar. O mais profundo desejo do coração humano é isto: que sejamos belos.
                Fernando Pessoa chega mesmo a dizer que ele queria se construir como uma obra de arte. E acrescenta: “Já que não posso ser obra de arte no corpo, que seja obra de arte na alma”. Mesmo São Francisco e todos os santos, por mais espelhos de vidro que tenham quebrado, à moda da Madrasta, fizeram isto por amor a um outro espelho, divino, onde sua beleza escondida poderia brilhar. Por isto gosto da Madrasta. É nela que vejo a minha verdade refletida. Porque todos estamos à busca de um espelho que nos diga sempre: “Tu és o mais belo!”
                Ah! Se o encontrássemos seríamos eternamente felizes. Quando, ao contrário, como aconteceu com a Madrasta, a bela imagem se metamorfoseia em imagem feia, viramos bruxas e feiticeiros do mal. Quebramos o espelho e o veneno transborda do corpo...
                É assim que eu penso o amor. Amamos as pessoas não pela beleza que existe nelas, mas pela beleza nossa que nelas aparece refletida. O que é uma bela pessoa? É aquela em que nos vemos belos. Quando, ao contrário, o espelho encantado nos mostra uma imagem feia, vai-se o amor e o espelho ou é quebrado ou é colocado permanentemente num quarto de escuridão permanente. Não mais o queremos ver.
                Narciso, eu penso, é o mito mais fundamental. Mais fundamental que Édipo. Narciso dá o tema fundamental. Édipo é uma variação, um desenvolvimento. A estória da Madrasta e do Espelho é uma combinação dos dois: primeiro, a relação de amor paradisíaco, Madastra e espelho. O amor acontecia na voz do espelho que dizia: “És a mais linda”. Depois, quando a relação de encantamento é quebrada pelo aparecimento de uma outra imagem, mais bela. E a Madrasta se vê, repentinamente, excluída do espelho. E fica malvada. Toda exclusão faz isto: desperta em nós uma imagem cruel e feia, que toma conta do corpo...
                Por isto que somos mendigos de olhare. Olhos são espelhos. Cada encontro é um pedido: “Diz-me, espelho meu, haverá no mundo alguém mais belo que eu?”
                Por isto nos enfeitamos, por isto escrevemos, por isto convidamos os amigos para jantares, por isto vamos a alegres reuniões de amigos, por isto se fazem atos heróicos, por isto se escrevem poemas, por isto se fazem gestos: todos são pedidos de reconhecimento da nossa beleza.
                Entenderam por que gosto mesmo é da figura trágica da Madrasta? Porque ela revela o drama do amor, a sua alegria e a sua decomposição. Somos todos a Madrasta, em busca de uma bela imagem...

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ver Vendo

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... De tanto ver, a gente banaliza o olhar... Vê não-vendo...
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver...
Parece fácil, mas não é...
O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade...
O campo visual da nossa rotina é como um vazio...
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta...
Se alguém lhe perguntar o que você vê no seu caminho, você não sabe...
De tanto ver, você não vê...
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio de seu escritório...
Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro...
Dava-lhe um bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência...
Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer...
Como era ele?
Sua cara?
Sua voz?
Como se vestia?
Não fazia a mínima idéia...
Em 32 anos, nunca o viu...
Para ser notado, o porteiro teve que morrer...

Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser que também ninguém desse por sua ausência...

O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem...
Mas há sempre o que ver...
Gente, coisas, bichos...
E vemos?
Não, não vemos...
Uma criança vê o que um adulto não vê...
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo...
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de tão visto, ninguém vê...
Há pai que nunca viu o próprio filho...
Marido que nunca viu a própria mulher (e desconhece os seus segredos e desejos), isso existe às pampas... 
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos...
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença...

Otto Lara Rezende

terça-feira, 12 de abril de 2011

Monstros do Esconderijo - "O Massacre de Realengo"

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Um jovem em sua solidão, mergulhado em dores e desafetos, após dias de planejamento escolhe retornar a um ambiente do passado, onde sofreu para fazer outros sofrerem, estes inocentes, vítimas dos monstros que habitavam em seu esconderijo. "Onde estava Deus?" talvez perguntamos, mas não é correto, talvez, o questionamento ideal seria "Onde nós estamos?", assim como Deus, um dia, questionou a Adão. Não era uma pergunta geográfica, mas um convite a uma introspecção (olhar para dentro).

O massacre em Realengo, nunca mais será esquecido. Todos nós fomos marcados por aquelas balas, por todas as mortes e acima disso, pela vida de Wellington Menezes de Oliveira. Sempre procuramos o(s) culpado(s) de tantas mortes assim, talvez a falta de um porteiro, ou de uma porta com detector de metal, a verdade é que o rapaz mencionado teve liberdade para agir, andou na escola, conversou com uma professora e vestido de "militante" entrou em uma sala e teve tempo apenas de dizer: "Vim dar uma palestra" e então iniciou o seu discurso estarrecedor. A culpa está espalhada em todos nós, nenhum de nós o conhecíamos, muitos de nós ja o viram pelo o menos uma vez na rua, poucos disseram a ele sequer um "Bom Dia...", quase ninguem, esteve disposto a navegar em Wellington. 

Quantos mais estão espalhados por ai? Quantos jovens, como esse, talvez agora se sentiram mais motivados a fazer o mesmo? Tomara Deus que seja o único massacre desse nível que ocorreu, embora não acredito. As crianças mortas nos disseram que temos que viver intensamente, afinal, poderia ser qualquer um de nós no lugar delas. O assassino nos diz que a  vida precisa se compartilhada, que precisamos uns dos outros, que se isolar de tal forma pode ter como consequências a morte individual e coletiva. 

Ao contrário do que Jabor disse no dia 07/04, no Jornal da Noite, Deus não está ausente. Entenderemos mais com o vídeo abaixo.


domingo, 27 de março de 2011

Crônica do Amor - Arnaldo Jabor

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"Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário, os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.O amor não é chegado em fazer contas, não obedece à razão.O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estrelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam,pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam.Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa mobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Você ama aquele cafajeste.
Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara? Não pergunte pra mim. Você é inteligente. Lê livros,revistas,jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém.
Ah, o amor, essa raposa...
Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, ta assim, ó! Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é!
Pense nisso".

domingo, 6 de março de 2011

Filmes do Oscar

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Durante esses últimos dias, vi alguns dos filmes indicados ao Oscar. O primeiro, foi sexta-feira(05/03) em que, com o objetivo de ir sozinho, para relaxar (acredite, cinema me relaxa) o meu pai se auto-convidou(rs) e me acompanhou até o Shopping, sinceramente, foi ótimo. Comprei o DVD da Paula Fernandes em promoção, na Americanas, comemos algo diferente e então as 21h05 estávamos sentados com sala cheia para ver a premiada Natalie Portman demonstrar o porque ganhou o Oscar de melhor atriz. 

Fiquei impressionado com o filme Cisne Negro. Você homem que não gosta de ballet, não se preocupe, o filme irá te surpreender em uma dança de cenas muito dramáticas e carregadas de reflexão. Intrigante, envolvente e forte, assim, na minha opinião é o filme. E sendo mais sincero e um pouco exagerado, Natalie Portman merecia, 2 Oscars. Fique com o trailer agora, depois continuo...


Hoje, depois de um dia cansativo baixei da internet o famoso 127 Horas. Devido a sinopse e alguns comentários de pessoas que assistiram, fiquei curioso para ver o filme que não é ficção. Novamente impressionado estou, ótimo filme, confesso que não tão bom quanto ao Cisne Negro, mas vale a pena ver. Refleti muito sobre o valor que esquecemos de dar, nas pessoas e coisas diariamente. Família, amigos, comida, água, VIDA...acredite, você vai agradecer a Deus por tudo isso, vendo o filme. Há uma cena muito forte, quando o personagem precisa decidir entre a sua vida e o seu braço, entendi nessa cena especificadamente o motivo do galã James Franco ter sido indicado como melhor ator, um terror. Com essa sinceridade dramática, da para saber o que ele escolheu não é mesmo? Fique com o trailer.


Bem, não preciso confessar mas, adoro filmes. Ainda tenho outros indicados ao Oscar 2011 para ver, até mesmo a melhor animação "Toy Story 3". Gostaria das suas dicas, então por favor, não deixe de comentar. Obrigado pela visita e leitura.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Propaganda Johnnie Walker

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Gostaria de destacar a história. Este homem tinha um sonho de ser atleta de triatlo, porem em um treino sofreu uma fratura em sua coluna, o impossibilitando de andar. No final do vídeo, umas das frases que muito me emociona: "Quando a sua realidade muda, os seus SONHOS  não precisam mudar."



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Diário de Caldas - Parte 1

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As férias estavam caminhando para o fim, sinceramente, o ambiente em casa não estava dos melhores para eu continuar instalado no meu quarto, aguardando o dia de voltar a rotina do trabalho, ministrando os treinamentos, embora, gosto muito do que faço.  Até que, com pouco dinheiro e com um irmão muito animado, fui até Caldas Novas (GO), cidade que a maioria dos mineiros conhecem bem, porem eu nunca havia visitado.

Saímos na sexta-feira(28/01) cedo, erramos o caminho por alguns quilômetros a mais, porem retornamos e por volta das 11:00 chegamos nessa cidade, conhecida por suas águas quentes. A busca por um hotel que o nosso bolso pudesse bancar, não foi muito fácil, pois sem conhecer a cidade, queimamos muito combustível, mas conseguimos um hotel simples que nos deixou com uma expectativa baixa, não era sujo o local, mas o colchão era de espuma, tinha até frigobar, mas uma televisão sobre o guarda roupa, de 14 polegadas, detalhe, este ficava a direita da cama, ou seja, caso escolhêssemos assistir alguma programação, teríamos sérios problemas como torcicolo, mas tinha até sacada, com duas cadeiras antigas, que serviram para secar as toalhas, admirar a paisagem de uma bela praça e conversar sobre o dia. O ventilador, pequeno, rodando em todo o tempo, sobre o frigobar, exercitando o motor para circular o ar, enfim, um hotel que não indico, pois a falta de conhecimento e busca fez com que pagássemos um preço alto, explico depois.

No mesmo dia fomos até Rio Quente, em um local nomeado de “Esplanada”, um preço acessível para entrar (R$ 15/pessoa) que oferece uma bela paisagem de águas quentes. Nesse local, pessoas de todos os tipos, confesso que ricos eram poucos, grande maioria era de classe média baixa, assim como nós e outros de classe bem baixa. Músicas de todos os estilos tocando em um ambiente destinado a camping, poucas crianças, alguns adolescentes, vários jovens desfrutando daquela felicidade momentânea, namoro, bebida, mergulho, banho de cascata, este por sinal muito relaxante. Por cerca de 3 horas, desfrutamos bem do local, pessoalmente fiquei mais quieto na cascata que caia com uma velocidade feroz nas minhas costas, desejando me levar para baixo, em outro lugar, mas sentado, deixando a “água rolar” meditei muito sobre a minha vida e tudo o que desejo desfrutar nesse ano de 2011, principalmente quando fiquei por um momento, observando o olhar de um adolescente que parecia estar intimidado com a água, aparentava ter seus 16 anos, cabelo de cor preto, com mechas loiras em tom escuro. Sua pele era morena, camisa branca, short branco com detalhes em preto, sentado em um banco, acima dessa cascata onde eu me encontrava. Mais importantes que tais características era o seu olhar vago e inquietante, talvez buscando alguém, mesmo demonstrando estar relaxado, observava a todos, creio que ansiava por respostas.  Fui encarado por esse olhar por um bom tempo, tanto que fiquei incomodado, sai da cascata, julgando que aquele garoto estivesse com outras intenções, escolhi pensamentos infernais, isso me distanciou dele, mesmo sem o conhecer, sem sequer saber o seu nome e um pouco da sua história. O julgamento talvez, me distanciou de um grande líder dessa nação, quem sabe um futuro escritor que irá impactar a minha vida um dia com suas sábias palavras, ou um simples garoto que não tinha mais sonhos, esperando uma palavra motivadora para ser alguém, fui ignorante, como na maioria das vezes.  Quando fomos embora, ele ainda estava no mesmo banco, agora, acompanhado de uma bela adolescente de pele negra, olhar delicado e palavras engraçadas, ele simplesmente ria, não olhava o seu corpo pouco vestido com interesse, apenas curtia a presença daquela bela garota.

A caminho do hotel simples, ansiava por um banho bem tomado, foi o que fiz quando chegamos. Após o banho, fomos até ao “Empório Dona Xepa”, sim é este mesmo o nome. Local não muito barato para fazer algumas compras rotineiras, aliás, como já sabíamos dos preços do HotPark, escolhemos comprar pão de forma, presunto e muçarela para fazermos belos sanduíches, primeiro para nos alimentarmos naquela noite e no dia seguinte para levarmos até a visita mais esperada...(continua).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Geração Greyson Chance - "Voz de gente grande".

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Estamos diante de uma geração muito diferente. Gostaria de debater isso em um outro momento, porem várias matérias trazem o grande diferencial dessa geração: o fácil acesso a várias informações. São crianças-adultos que se vestem como os pais, mas acredite, grande parte dessas crianças dominam hoje, vários assuntos que os seus pais necessitam estudar para se equipararem, um destes é a internet. 

Antigamente, eu e você brincávamos de pique-pega, futebol na rua, pique-esconde, carimbada, enfim, a maioria de nós das décadas de 70 e 80, éramos crianças saudáveis que nos exercitávamos sem medo e éramos muito felizes com todas essas brincadeiras, alem de sermos muito criativos para inventar outras diversas. Confesso que ainda existem crianças assim, que nasceram nas décadas posteriores, porem estão extintas.

 A alegria do garoto de 12 anos é o computador, da menina de 11 anos o namorado, do adolescente de 15, seu ipod, da precoce de 14 o sexo. As brincadeiras acabaram, a socialização é superficial, não sabem quem são, na verdade uma verdadeira mistura de "Restart", "Justin Bieber" e outros famosos que possuem o que essa geração busca: aceitação. Buscam não um "lugar ao sol", mas um coração para aceitá-los da maneira que são, por isso que grande maioria tem se entregado para qualquer coisa que apareça para amá-los. São carentes de atenção, porque os pais dessa geração, precisam trabalhar o dobro para alimentá-los, então preferem deixá-los sozinhos, no quarto, de frente para o computador que não possui alma e amor suficiente para compreende-los.

Esses pequenos adultos, tambem conhecidos como a nova "Geração Z", prometem chegar ao mercado de trabalho com concorrentes muito capacitados, intelectuais, mas sozinhos, doentes. Com certeza, por sua enorme facilidade de interação com esse mundo tecnológico, farão uma grande diferença, mas a tendência, creio eu, é esta: "o amor de muitos irá se esfriar...".

Fique a vontade nesse nosso espaço para ver o vídeo do garoto Greyson Chance, de apenas de 12 anos que conseguiu o ano passado ter o terceiro vídeo mais visto do mundo, no site Youtube, com cerca de quase 40 milhões de visualizações e deixar o seu comentário sobre, pois com certeza o garoto possuem um dom maravilhoso, sofrendo influências das quais foram discutidas acima.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Carlos Drummond de Andrade disse:

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"Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma, e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença,aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci. Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite. Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama, te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força. Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo. Só assim, livrar-me-ei de ti, pernilongo Filho da Puta!"

Acredite, é do Drummond mesmo! Achei hilário quando ouvi pela primeira vez na faculdade. Poetas tambem se distraem com verdades diárias, eu diria, noturnas.
 

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