segunda-feira, 28 de maio de 2012

AUTOPORTRAIT - A visão de si.

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AUTOPORTRAIT

A VISÃO DE SI

OLHOS



Estou conhecendo uma nova pessoa, sua história tem me chamado a atenção. Filho bastardo, não planejado e aguardado com expectativas e sorrisos. A vida o convidou antes mesmo do nascimento, para ser vítima e assim se comportar, carente de atenção, reconhecimento e prestígio. Sua infância, lembrada mais por fotos do que por simples e agradáveis memórias, passou rápido, na verdade, ele não conseguiu me dizer se realmente viveu as brincadeiras, as estórias, narrou até hoje apenas a sua convivência com primos, os demais eram adultos, de fala difícil, responsabilidades e preocupações. Tem uma irmã, agora um sobrinho, uma mãe, um pai, teve uma avó e só, a família se baseia nestes, poucos convidados para qualquer festa de formatura ou casamento, até porque, os primos estacionaram no passado, sim, segundo ele amigos vieram, mas o último agora, partiu através de carta, escreveu algumas páginas e foi voar... Em lágrimas me disse que foi sempre assim, uma única pessoa se aproxima, se torna fonte, mas se esgota e fim.

Em nossa última conversa, o conheci muito e soube que há muito mais para ser ouvido. Contou-me sobre uma adolescência complicada, chegou a ser obeso, criticado, se perdeu na sua identidade, ora era preto, depois cômico, outrora branco... Acontece quando se ado(l)e(s)ce. Disse de fases difíceis, casa sem luz, banhos frios e velas espalhadas e que a comida, nunca faltou, mas por várias vezes, teve vontade de ter e nada teve. Apegou-se então a Deus, crises acabam se tornando convites e foi o que aconteceu. Família católica, não tradicional, rezava o credo, o terço as terças, missa televisiva. Meu conhecido foca em um terço azul que teve, ficava na sua cama, presente familiar e ali, diariamente quando escurecia, as mãos e desejos passavam por aquelas bolinhas, com muita ordem e temor. Tornou-se então religioso, foi trazer dinheiro para a sua casa através de arte cênica, conheceu uma garota, pequena garota, do sorriso bonito que lhe apresentou a Bíblia e Jesus, me pareceu observando-o, que sente saudades... não sei se é da garota ou da Bíblia, talvez de Jesus. A Bíblia em sua casa iluminou a podridão, segundo ele. Coisas horríveis aconteceram, boas também, pessoas admiráveis conheceu que o auxiliaram muito, viajou, morou no mesmo Estado, mas saiu da família, do quarto, foi fazer amigos, conhecer gente nova e estudar Deus (pausa) como é que é? Questionei. Quando fui estudar Deus, Ele me estudou. Respondeu. E como Deus estuda agente? Novamente, indaguei. Ele senta do nosso lado, questiona e as respostas aparecem. Disse. Simples assim? Satirizei. Não é simples aceitar respostas sobre você, até porque, eu não queria ouvir várias delas. Levantou as sobrancelhas, lábios juntos do lado direito e me encarou. E ouviu... Foi atrás por quê? O acompanhei na expressão. Queria mudar em mim, o que homem nenhum consegue a não ser quem O fez. Hum. E? Mudou o que então? Insisti. Silêncio...lágrimas brotaram e me responderam, parecia que a mudança estava encaixotada.

Depois de alguns minutos, saída para o banheiro e cozinha, voltou com um copo de suco, me ofereceu, neguei, ele sentou na cama e foi dizendo que devido a desorganização familiar, constantemente presente, desde os 11 anos planejava casar. Se apaixonou, ela tinha uma irmã gêmea, as vezes as confundia, raras vezes. O primeiro beijo, no shopping da cidade, antes a preparação bucal recebeu balas fortes, talvez metade do pacote, o resultado foi um beijo babado, consequência dos lábios sedados, mortos. Mas foi bom, inesquecível. E comprou um caderno e neste, números de imobiliárias da cidade, queria uma casa. (pausa) Casa??? Pra...?? Casar...ja disse. Riu. Você beijou a garota uma única vez, comprou um caderno e queria casa pra casar? Minha boca estava aberta, aguardando resposta. Sim, aquela garota representava naquele momento o convite para uma fuga. Foi parando de rir, olhando nos meus olhos. E um garoto de 11 anos queria fugir para onde? Suspendi as mãos no ar, insatisfeito. Para onde o sonho dele o chamava. Poetizou. Seu sonho em meados de 1998, deveria ser os do Fantástico Mundo De Bob, ou de ser apresentador do Disney Club e não de casar...lembra não, da TV Cruj?? Tentei mudar o assunto. Lembro sim, eu dava tchau quando eles finalizavam “Cruj, Cruj, Cruj, tchau.” Ele me acompanhou no raciocínio e lembrança. Mas mesmo com a separação dos meus pais, eu queria casar. Não adiantou, ele retomou. Deve ter sido dolorido pra você né, pai de um lado, mãe de outro? Acompanhei.  Foi sim, mas a separação territorial foi apenas a interpretação do ensaio interno. Sei.

Continuou entre os goles de suco, falando sobre a primeira garota. Disse que quando ela mudou de colégio a esperou por alguns anos, até completar os 14, sempre em contato por telefone, até que foi menosprezado. Depois, quase aos 15, conheceu uma garota de rosto angelical, quase desvirginou-se, mas nada além ocorreu, embora descobriu reações do corpo que gostou. A primeira traição. Então, nessa época, com quase 16 anos, apareceu a garota da Bíblia e ficaram íntimos. Se conheceram bem, ocultaram uma paixão que foi revelado a poucos, como pecado, tanto que foi confessado e arrependido. (pausa) Foi em um confessionário?? Ri baixo. Quase... Ele riu alto. Dessa confusão momentânea, ficaram grandes amigos, mas a garota hoje, já está casada e bem distante e segundo ele, não sabe sequer a cor do cabelo, nem se já está gravida. E então, ele citou a palavra amor... Foi a primeira vez. (pausa) E amou virgem? Escondi a risada. É...nunca transamos. Mãos ali e acolá, beijos e desejos, nada mais. Mas eu sei que amei, de verdade. Foi intenso, me entreguei completamente, acreditava piamente de que naquele momento eu sonhava e vivia o sonho de Deus para a minha vida e ela também. Era linda, eu  gostava dos seus cabelos, sua maturidade e carinho. Conseguia enxergar a mãe dos meus filhos. Desabafou. Caramba, e ai? Fiquei surpreso com tanta emoção. E ai que errei...muito. No papel de pai e não de filho da família, adoeci, disse bobagens, queria afastá-la daquela vivência, sem perde-la...mas experimentei o que Deus deu aos homens: livre-arbítrio. Fui traído. Um riso forçado apareceu. É meu novo amigo, os dias de hoje são difíceis e mulher está mais arisca que homem. Tentei aliviar. Não, não...me desculpe. Quem me traiu foi o amor e não ela. Pensei que o amor era pra sempre e que tudo suportava. Mas aquele amor, desistiu de amar. Não suportou, não soube contemplar o insano e ser paciente. O amor me traiu. Os olhos dele entravam em mim. É...entendo. “Quanto tempo leva o coração, pra saber, que o sinônimo de amar é sofrer?” Disse o poeta Zé Ramalho, não é mesmo? Cantei desafinado para quebrar o clima. Gosto muito dessa música. Apreciou. Mas, na voz do Zé Ramalho. Desqualificou.

Eu gostei dele. Não no sentido atrativo, se é que me entende. Você me entende. Gostei de sua história, ficaria ali por horas ainda ouvindo, mas percebi que o suco havia acabado, as risadas haviam diminuído, estava tarde e ele tinha voltado a cozinha, questionando em alta voz se eu estava com fome, neguei, ele retornou, pediu licença e foi para o banheiro. Banho. Estava de saída, afinal era sábado. Cara, eu vou indo nessa. Afirmei. Calma ai, vou só tomar um banho rápido, preciso ir correndo encontra-la, estou um pouco atrasado, dai vamos juntos. Ele suplicou. Tudo bem. Concordei. Ele não tinha falado sobre namorada, ainda. Mas estava de aliança e na beira da cama, um porta-retratos sem foto, deitado, me aproximei, do lado uma foto, com ele na imagem, uma linda garota de belo sorriso, atrás da foto um código: ICO13.7. Leigo, fiquei curioso, pensei em perguntar, ele apareceu na porta de forma “Mestre dos Magos” e disse: Essa beleza era a que faltava no meu jardim pisoteado. Quanto a descrição atrás, te explico no caminho. E foi enxugando e colocando a roupa, além de ler meus pensamentos. Senti medo e curiosidade. Havia muito segredo em seus olhos.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

#OuvindoOQ?

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Como fazem vários meses que por aqui não apareço, pensei em voltar trazendo a todos a oportunidade de ouvirem um ótimo CD que pessoalmente, vou adquirir. Nesse novo espaço, #OuvindoOQ vou trazer a oportunidade de você leitor realizar o download de alguns cd's que aprecio. Peço somente que não comercialize, mas que possa experimentar o som e caso queira, adquirir o CD.

O CD de hoje é um Especial que a Globo fez de Ivete, Gil e Caetano, cantando músicas maravilhosas. Confira a listagem e caso desejam, façam o download abaixo.



01 A Novidade
02 Toda menina baiana
03 O Meu Amor
04 Tá Combinado
05 A Linha e o Linho
06 A luz de Tieta
07 Tigresa
08 Você é linda
09 Atrás da Porta
10 Super-Homem – A Canção
11 Se eu não te amasse tanto assim
12 Olhos nos Olhos
13 Drão
14 Dom de Iludir
15 Amor até o fim

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Observações Intrigantes

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Encontrar a mulher que queira apenas ser a sua companheira e construir uma história a dois não é uma incumbência fácil, você leitora, por favor, compreenda que não é uma crítica apelativa a todas vocês, até porque sei por parte das mulheres, da imensa dificuldade de achar um homem que deseje algo além do que o seu corpo e carícias, mesmo assim, necessito prosseguir se me permite, com algumas observações.

Os meus olhares perseguem os comportamentos sociais por muito tempo, talvez um hábito desenvolvido por leituras e curiosidades, sei que gosto da prática diária de buscar compreender os vários motivos que levam, por exemplo, a disputas noturnas de quem mais usufrui dos desconhecidos corpos espalhados por toda a cidade. Nessa querela é insignificante, na maioria das vezes, o nome, os gostos, a história, o que interessa é o momento e todas as sensações que este irá propiciar a vítima e seu “agressor”. O que me prende a atenção, principalmente nessa situação, são as possíveis consequências desse ato nada heroico e antes, o que motivou tais pessoas a saírem de suas residências em busca desse tipo de prazer aproveitador e egoísta.

Peço desculpas novamente, se agrido as suas opiniões sobre tal realidade, mas realmente não concordo com esse tipo de entretenimento. A plastificação do ser humano, feita de modo nada diferente, pois se utiliza também nesse caso de “calor e pressão”, acaba desqualificando todo o conjunto e subjetividade de cada um. Estou ciente, que a culpa não é única de quem faz as vítimas, mas também destas que aceitam receber, isso, não podemos ignorar. Defendo que desqualifica, porque repito, a busca é pelo prazer que o outro pode proporcionar agora, o antes, inclusive o depois, nada disso é atraente, logo o ser humano se torna um plástico que pode ser utilizado e jogado fora. Os homens sabem muito bem agir dessa forma, pensam que assim ficam mais másculos, porem ultimamente, parece-me que as mulheres praticam de forma contínua esse ato de “ficar”, até porque, se um homem sai de casa com esse objetivo, ele corre o risco de não “pegar” ninguém, agora, caso a mulher deseje isso em uma noite, tenha a certeza, que achará qualquer um para corresponder a sua expectativa.

Aproveitando desta percepção e de várias outras no universo feminino, lembro-me sorrateiramente de um dramaturgo grego chamado Aristófanes, que em 411 A.C escreve uma peça nomeada de “A Revolução das Mulheres” (ou “Assembleia das Mulheres”), em que através de seu personagem principal, nomeado de Valentina (que significa “forte”), narra o governo das mulheres, a mudança da cidade de Atenas e a resolução do problema das mulheres feias. Obviamente uma sátira a certas teorias da época, mas não deixaria de ser uma profecia aos anos vindouros. Retornando ao que abordo, o comportamento delicado, doce, de voz suave e atitudes puras foi trocado por algo agressivo, rude, de palavras e gírias de baixo calão, houve então uma troca, mulheres se impondo, se masculinizando e homens se afeminando, preocupados mais com o corpo, tamanho do pênis, cremes, manicure do que com um melhor emprego. Atualmente existem, por exemplo, várias famílias em que o homem fica em casa e a mulher sai cedo e retorna quase no outro dia, devido há 2 empregos que possui.

O intuito não é dizer o que é certo ou errado, isso é subjetivo demais para quem vos escreve e claro, para você que lê. Acho interessante essa brusca mudança, pessoalmente, me agride como descrevi em algumas frases acima, além de ser muito diferente tal situação. O curioso é que Valentina e as outras mulheres de Aristófanes decidem tomar o poder, pois não suportam mais a incapacidade dos homens. Talvez, as princesas não mais existam em grande maioria, porque cansaram de esperar por príncipes ilusórios, vivos somente em filmes, livros e nas mentes.

(PARÊNTESE)
O culto ao corpo faz com que hoje as femininas se interessem por aquilo que a mídia intitulou como belo, sexy e atraente, assim como os homens também procuram as mulheres frutas em seus mais variados sabores. Apagando a identidade de cada um, impondo um novo conceito de correto, as mídias sociais delicadamente, faz com que sejamos sabotados a querer o que todos anseiam. Sou um homem comum, nada atraente e confesso que me sinto constrangido ao me olhar no espelho e ver uma imagem totalmente diferente do que vejo na TV, revistas e internet, parece-me que o sucesso, o poder, a ACEITAÇÃO está ligado a elas e disso temos medo, de sermos rejeitados. Por isso uma busca desenfreada pelo corpo perfeito, as dietas rigorosas, as curvas e músculos do verão, os produtos e a tecnologia, tudo por uma boa aparência. Esquecemo-nos que podemos ser rejeitados também, por aquilo que sai da nossa boca e a correção disso é a mais importante e leva muito mais tempo do que imaginamos, pois não adianta pintar parede podre com tinta fresca.

Mesmo assim, vivendo nessa realidade descrita, sei que existem exceções para tudo, há ainda mulheres que sabem do seu valor e não se prostituem com vários somente para se sentirem desejadas, assim como há homens que respeitam os sentimentos femininos, buscam compreende-los mesmo no silêncio e estão dispostos a revelarem as mulheres que o romance existe e é possível vive-lo. Sei que sou um profundo admirador de filmes românticos, principalmente daquelas histórias que o casal parecem ter nascido um para o outro, se amam profundamente e mesmo com desentendimentos, frustrações, lutam um pelo outro, buscam fazer o outro feliz, sem esperar sorrisos em troca.

Acredito piamente no amor e sei que é possível vive-lo, pois hoje, tenho o prazer de desfrutar da melhor época sentimental que tive ao longo dos meus poucos vinte e quatro anos, alguém que em pouco tempo, me entende, aceita e se envolve juntamente com as minhas limitações e imperfeições, sempre dizendo que ama tudo isso. Algo raro, aliás, encontrei a minha exceção nesse mundo e para esse tipo de amor, Fernando Pessoa diz: “...se o achar... segure-o! Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais... é nada." Assim, tenho tentado agir. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O garoto Rafael

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O pai finalizou o corte. Encontro-me em um salão de cabelereiro, na verdade, nunca havia frequentado um assim. Mas não quero focar no local e em outras pessoas, apenas no pai e seu filho.

Inicialmente de onde me encontro sentado, enxergava apenas a figura paterna, o filho se escondia ao lado, mas logo se apresentou a cena e se tornou o personagem principal. Seus cabelos são lisos, castanhos, longos e estavam prontos para serem cerrados, pai e filho trocam opiniões sobre a transformação. O corte então é iniciado, o filho boceja e o pai pede para que ele não durma como das outras vezes, o filho lhe responde com sorrisos e expressões inocentes de um garoto, aparentemente no seu oitavo aniversário. Identifico-me com a sua felicidade e olhos cerrados, seu ponto fraco é o mesmo que o meu, mãos no cabelo trazem sono e quietude.

O filho não obedece ao pai, se entrega completamente aos carinhos de quem molda o seu cabelo, fazendo com que sorrisos apareçam no ambiente, pois é inacreditável a sua reação ao toque. Seu pai, imediatamente aperta o seu rosto, e aquele olhar angelical se desperta de forma rápida sobre ameaças de ficar careca. A partir dai o pai leva o filho a refletir que corresponder ao ponto fraco pode trazer riscos irreparáveis. Enquanto filosofo sobre a cena, o corte toma forma e o sono de seu corpo não desapareceu, os riscos estão todos ali e o garoto opta por vivê-los, a não fugir dos temores e do que a vida lhe oferecia naquele instante, não busca ser um menino atencioso, apenas se entrega ao prazer de dormir, corre perigo sendo ele mesmo.

Com sua reação me identifiquei, sua coragem e inocência era desconhecida em mim. Saí do salão e desejava apenas saber o seu nome. Minutos depois, na fila de um fast-food, escolhendo a opção que mais me agradaria e discutindo sobre com minha delicada donzela as opções em cartaz, eis que ela apenas diz: “Ficou lindo o seu corte...”, focando a sua atenção e singelo olhar, atrás de mim. Era o garoto. Um mágico momento me trazia a inspiração da escrita em carne e osso, um olhar meigo, palavras mansas, envergonhadas e muito sinceras recebiam o elogio e respondia: “Sinceramente não gostei, mas muito obrigado.” Não perdi a oportunidade e continuei o elogiando, ele corado, apenas agradecia e com o tempo, pedia a opinião para o sanduiche que tinha bacon, outro ponto em comum. Analisamos e chegamos a conclusão que a melhor opção seria o número 8 e ele o solicitou a caixa, que também lhe recebeu com um carinhoso sorriso.


Eu não conseguia disfarçar, o desejo paterno estava despertado em mim de forma feroz, embora gosto muito de crianças, mas era uma situação diferente, um clima nada comum e um garoto que no silêncio e ação, me fez falar e agir. Meu pedido foi impresso primeiro, o dele logo após, mas então ele se distanciou, ficou no final da fila. Não contente em vê-lo afastado, o chamei e então questionei o seu nome, ouvi ele dizendo: “Rafael”.

No hebraico, Rafael significa: “Deus o curou”. A cura de Deus em frente a um homem em construção, me atingiu de tal forma que fui curado de um sonho, não mais sonhado, do renascimento de flores, antes sem cores, da simplicidade perdida no tempo. O garoto não fez orações, não me chamou pelo nome, talvez nunca mais o vejo, mas Deus sabia quem necessitava de cura e onde a cura deveria agir. O menino Rafael me convidou em seus gestos e silêncio, a correr riscos, a receber o toque de um Deus carinhoso e descansar, me entregando ao sono e deixando assim, os meus sonhos ressuscitarem. Fui curado. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Você mulher...

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Nesta madrugada, inspirado por um novo encontro amoroso, escrevi o que admiro e busco em uma mulher. Felizmente, tem sido muito apreciado, por isso, deixo nesta ferramenta, o registro.

VOCÊ MULHER...

Você mulher, não precisa ter um corpo de fruta,
Este sabor, não é o melhor para ser devorado.
Não precisa ter roupas sensuais,
Deixe a sua exibição para o olhar e palavras.

Você mulher, não precisa exagerar na maquiagem
Uma obra assim, nem mesmo Renoir modificaria.
Não precisa dançar o ritmo da desvalorização,
Reserve a sua dança e passos para quem lhe mereça.

Você mulher, não precisa beijar a todos os homens,
Desenvolva intimidade, primeiramente com Deus
E o homem que te desejar, terá que primeiro
Buscar a Deus para encontra-la.

Você mulher, não precisa falar grosso e dar ordens
Cultive a delicadeza nesse jardim devastado,
Sua doçura, respeito e educação farão seus desejos
Serem realizados, quando menos esperar.

Você mulher, precisa ser apenas mulher.
E saber que o príncipe existe, mas que ao invés do cavalo branco
Ele traz defeitos, talvez graves ou não.
Que gritam por cura...e a cura é ouvir e mostrar quem cura.

Você mulher, suficientemente bela, atraente
Saiba que nós homens, confusos e imaturos
Procuramos você, que lê, que compreende essa simplicidade
De ser diferente, de se decidir em não ser mais uma.

Você mulher, aonde estás?

terça-feira, 26 de julho de 2011

Marcado para viver

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Eu não escrevo desde que os meus sentimentos ficaram paralisados, quando vi aquele corpo coberto e nele nada existia, alma, desejos, sonhos e o carinho de sempre. A morte que me atropelou na estrada da vida, sendo a primeira vez, fiquei arrasado. Feridas são saradas até hoje e não sei ainda a facilidade de ver alguém que ama partir e continuar normalmente seguindo em frente, não caro leitor, confesso a você, não sou o mesmo. As lembranças ainda me perseguem na minha solidão, a terceira idade espalhada na cidade, com seus cabelos brancos ao vento, metralha a minha memória das cenas que sinceramente, não quero esquecer. Caminhando, troco sorrisos e lágrimas, ninguém entende, exceto eu e Deus.

Acordo e preparo o meu café, alimento o corpo para prosseguir. Entro no banho, troco o xampu, dizem que é bom e necessário. Espalho o sabonete por todo o corpo, este ainda recheado de ondas, nas regiões abdominais. Passo um creme na face, esfrego, presente da minha irmã, segundo ela, minha pele ficaria lisa e doce como a dela. Inicialmente, achei um pouco estranho, o machismo instalado relutou, mas o óleo que me faz brilhar clamou para que fosse removido, então cedi e tem feito uma pequena diferença, apesar de achar que é mais minha fé do que o produto. Escovo os dentes, desejo que fossem mais brancos. Roupa, espelho e cabelo que cresce muito rápido, penso em rapar, enxergo a minha cara imensa e logo desisto. Saio de casa, ligo o som e deixo que cada melodia faça com que eu viva fora daquela realidade de ônibus lotado e caminho rotineiro. Canto, baixo, mas canto, quando me envergonho pronuncio as palavras sem som, principalmente as músicas estrangeiras, alias, é uma delícia cantar sem saber realmente o quê. Fui traduzir algumas letras esses dias, primeiramente para saber o que tanto gosto de fingir cantar e segundo, para estudo e curiosidade. Sabe, algumas músicas mesmo no português nu e cru, continuei sem entender.

No trabalho, as mesmas pessoas. Aquela menina tão linda, que evita conversar e eu também. Timidez as vezes distancia um casal que poderia dar certo. Mesmo assim, insisto em permanecer imóvel, estou a trabalho do bolso e das necessidades básicas, não de alimento para a alma. Na volta do trabalho, por exemplo, hoje passando em frente a uma drogaria, carro ligado, parado no estacionamento, no banco detrás, uma mulher e uma criança, correndo em direção aquele transporte, um homem. Na verdade, desejei ser ele naquele momento. Pai de família, acudindo o filho com a esposa em um carro popular. Sempre desejei crescer, por isso aproveitei pouco, a infância e adolescência. O meu desejo por ser pai é imenso, antes, é necessário uma mulher, mas não quero encontrá-la somente para usufruir de uma parte do seu corpo para que assim, me proporcione logo o que almejo. Antes de ser pai, preciso desejar ser jovem, namorado, noivo e marido. Gosto da ordem tradicional e muito a admiro.

Quero me apaixonar. E agora, talvez eu escolha “a pessoa errada”, segundo Veríssimo: “...Porque a pessoa certa faz tudo certinho. Chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas, mas nem sempre a gente está precisando das coisas certas. Aí é a hora de procurar a pessoa errada.”

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Crônica da Saudade

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Hoje, minha vó Nice que faleceu no dia 19/06, as 23:50, completaria os seus 80 anos de idade. Deus escolheu a levar antes e deixar apenas, lembranças, saudade, muita saudade. Devido a isso, a ela dedico essa crônica, com muito amor e carinho.

       "Após levantar da cama e ver algumas chamadas não atendidas, cerca de três, pensei seriamente no que estas poderiam me dizer, mas as atrasei. Após o banho, a roupa de trabalho e perfume, prossegui ruma à rotina que se alimenta de mim e me deixa, diariamente, mais cansado. Entrei no ônibus, que me acolheu com carinho e calor, sai dele após dez minutos. A curiosidade ainda era intensa, mesmo sabendo a notícia que aquelas chamadas poderiam me trazer. Assim que recepcionei os sedentos de conhecimento, naquela fria madrugada, outra ligação, esta eu ouvi e então, eu que estava dentro de uma sala, sai para agora atender... tarde demais. Meus passos foram curtos ou as chamadas rápidas, perdi mais uma novamente. Mas, enquanto de fora da sala estava, sendo vítima daquele vento gelado e escuridão, os enfrentei, me afastei de todos para receber a notícia que a minha alma esperava recepcionar, mesmo não sabendo como. Retornei a ligação, a minha mãe atendeu e suas lágrimas que acompanhavam cada sílaba do meu nome, após citá-lo, apenas disse: “... sua avó faleceu, estou aqui no velório”. O silêncio tomou conta de mim.
       A partir daquele momento é como se duas mãos, não me pergunte de quem, rasgassem o meu peito, sem cirurgia e pudor, com intensa força que pude sentir. Toda a minha força se dissipou e por não estar concentrada em nenhuma parte de mim, entreguei-me a esse processo da vida e me deixei ser invadido. Sobrou fôlego para perguntar onde o corpo estava velado, ciente, desliguei. Pronto, agora as lágrimas sobressaíram e eu estava há poucos minutos para ensinar a alguns, o que a vida tem me deixado aprender. Deixei a alma escorrer. Em poucos minutos, num canto escuro a cirurgia foi iniciada e a vontade era gritar até que alguém corresse, nada dissesse e me abraçasse. Somente Deus naquela hora, poderia fazer isso e fez. Enxugou aquelas lágrimas, me concedeu amor e força para continuar a trajetória, nem que fosse por mais alguns minutos.
         Entrei na sala, meus olhos vermelhos poderiam ser julgados como irritados ou afetados por uma virose, mas passaram despercebidos. Iniciei uma dinâmica, em três processos, consegui sorrir e fazer com que outros dessem gargalhadas, era mágico, nada real. Assim consegui percorrer metade do plano de aula e quando a pressão interior se intensificou e ao meu redor, já estavam por perto, pessoas que poderiam me ouvir e ajudar, fui atrás de socorro. Desabafei e a comoção fez com que um movimento solidário se formasse, fui liberado das responsabilidades do dia. Meu pai do lado de fora me esperava, entrei no carro velho e fomos até o local, onde jamais esqueceria a imagem, o cheiro e todas as sensações que nele vivi.
           Todos os familiares ali estavam, alguns que nunca conheci me cumprimentavam, apresentavam os seus sentimentos, antes mesmo de eu saber o porquê dessa atitude. Caminhei em meio a olhares, comentários, fuxicos e ali estava o esperado, inesperado. Quando me aproximei e olhei o corpo, o rosto, vestido e flores, a cirurgia em processo, arrancou-me um pedaço e gritei. Tentando controlar a euforia daquele momento, cerrava os dentes para não emitir um alto som, mas não deu, tive que ser amparado por aqueles que haviam passado pelo mesmo processo, após o primeiro encontro. Não sei por quanto tempo fiquei ali sentado, chorando, mesmo ouvindo comentários de que não deveria assim proceder. Um diácono apareceu, cumprimentou a maioria, fez orações, deixou uma mensagem do evangelho e espiritualmente se despediu daquela que não conhecia, nem amava...errou até o nome por duas vezes, mas, era o seu papel, fez de forma honrosa e creio que Deus o ouviu e o capacitou. Fiquei por mais alguns minutos, confesso que esperei algum abraço conhecido e sincero me envolver, mas os que prometeram ir, não foram enquanto eu ali estava. Ainda fraco, me levantei, toquei pela primeira vez o rosto dela... frio, mais nada estava ali a não ser o corpo que fica na espera de retornar a terra para ser consumado. Refleti em tudo o que fiz enquanto seu corpo estava quente... muito pouco por mim foi feito, novamente chorei.
      O enterro foi no mesmo dia, horas mais tarde. Eu estava em casa, garantindo a excelência em um trabalho que me auxiliaria a ser aprovado naquela matéria, mas não era ali o meu lugar e nem mesmo o momento para isso, mas fiquei. O enterro passou, tive poucas notícias e eu sabia que precisava de um último encontro. No dia posterior, livre da rotina, um pouco mais descansado, no fim da tarde entrei no cemitério e comecei uma busca pelo local. Nada encontrando, meu pai que estava comigo, juntamente do meu irmão, questionou a uma coveira que passava ali perto, ela fumando o seu cigarro, com botas e roupas sujas de enterrar vários mortos, tragou por 2 vezes e nos respondeu o local e o horário em que foi o sepultamento, provavelmente, ela se despediu da minha avó trabalhando, afinal, os mortos também geram emprego.
      As flores estavam novas, várias por sinal. Uma coroa continha uma faixa dos filhos, outra coroa dos netos e bisnetos, nesta eu estava representado. Foi enterrada juntamente com o seu pai e sua mãe. Eu estava agora sobre todos eles e me sentia o menor, o menos importante. Eu queria ter dito algumas palavras, me despedir finalmente, mas ela não poderia me ouvir, se foi.  Eu esperei pelo dia de hoje, acreditei que ela viveria até hoje, quando completaria 80 anos. Hoje, eu iria beijá-la, abraçá-la, mesmo se ela não me reconhecesse. Hoje, eu iria demonstrar a ela todo o meu amor, carinho e agradecimento... esse foi o meu problema, marquei data para fazer o que talvez, ela aguarda-se todos os dias de forma espontânea... data e hora marcadas  para dizer apenas: “vó, eu te amo”.  As horas passam, normalmente marcamos hora para tudo, menos para amar. Nunca escrevi na minha agenda: “visitar a minha avó doente e encher ela de beijos...”.
     A morte sempre nos traz um sentimento que necessitamos de revisão. E claro, não somos preparados para a morte, tanto que a pergunta que mais ouvi no dia foi: “Tudo bem com você?”. Claro que não. Mas as pessoas não sabem como se comportar, o que dizer, preferem então jogar a responsabilidade para Deus e que Ele console, que Ele ajude, que Ele enxugue as lágrimas. De fato, o papel de Deus é fundamental, singular e ninguém o faz tão bem. Mesmo assim, ninguém me questionou: O que posso fazer para que você se sinta melhor hoje? Se for o silêncio, aqui fico, se for uma música, lhe empresto a voz, se for o meu toque aqui estão minhas mãos, se for uma oração, faço-lhe uma prece e lhe conduzo a Deus e se for apenas o choro, lhe acompanho nessa dor que não se passa. O carinho se intensificou nas redes sociais, aonde todos estão querendo saber da vida do outro, alem do único abraço forte e lágrimas do meu irmão.
Enfim, se eu tivesse mais alguns segundos, ou pudesse reanimá-la, diria: “Ei vó...obrigado por tudo...obrigado por ter sido mãe e pai de mim e da Aline, quando eles não puderam ser. Obrigado por investir tempo, dinheiro e tanto carinho, fazendo toda sexta-feira os doces e bolo que eu gostava, por receber meus amigos, namorada e me dar conselhos. Por rir das minhas piadas sem graça, por me xingar e logo em seguida me chamar de “bunitinho”, por as vezes, achar melhor me pedir conselhos. Por confiar em mim, na minha irmã e pais, mesmo quando lhe oferecíamos motivos para desconfiar. Obrigado por me amar e não colocar hora, nem data para isso.”
     Então após essa sincera declaração, caso quisesse, poderia eternamente dormir. Mas não foi assim e Deus sabe o porque. Dessa maneira Deus me ensinou a simplesmente amar a todos que Ele me desse oportunidade, sem esperar nada em troca. O que fica agora, são as lembranças do seu sorriso, doce sorriso, que me deixa uma dor crônica no peito e com isso fez nascer uma crônica da saudade."
 

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